Nadando contra o impossível desejo de voltar atrás

Nadando contra o impossível desejo de voltar atrás

Todos nós navegamos nesse rio da vida. Esse rio cuja forte correnteza nos empurra sempre para um mesmo destino, um oceano de inexistência no qual vamos desaguar e nos tornar um só com o universo. Essa perspectiva é, de fato, trágica e monótona. Mas esse é somente uma das perspectivas de como se encarar essa jornada e, contradizendo minha própria opinião de que não existem afirmações certas ou erradas quando se refere às questões que assombram a alma humana, me arrisco a dizer que essa perspectiva, se não absolutamente errada, é com certeza limitada. A vida é mais que isso, bem mais que isso.

De fato, nós todos temos algo em comum: nós todos rumamos, incessantemente, ao desconhecido. Se há uma coisa que torna a vida o que ela é, é que ela é finita. E não há como escapar disso. Mas como já mencionado, a vida não é sobre a morte, a vida é sobre o caminho até ela. Por onde ele é trilhado, como ele é trilhado e com quem ele é trilhado. Nós buscamos o sentido da vida no inicio e no final dela, e assim não percebemos que o sentido dela está no meio disso. É sobre a trajetória.

E é muito bonito, e ao mesmo tempo feio. É muito empolgante e ao mesmo tempo aterrorizante, o fato de não sabermos absolutamente nada sobre essa jornada.

Estamos sujeitos aos caprichos do universo infinito, aos desígnios de um destino implacável ou a aleatoriedade de um acaso impossível de prever? Seja lá qual for a resposta para essa pergunta, o fato é que não importa, pois qualquer que seja ela, nós não temos controle algum sobre esse caminho que trilhamos. E iludir-se achando que pode prever, se preparar ou antecipar por onde o rio da vida vai te levar é o primeiro ingrediente para a loucura ou no mínimo a frustração.

Mas o que mais me assusta sobre isso tudo, é que independente de qual caminho a vida nos leve, esse caminho só tem uma direção, não se pode voltar atrás nem um milímetro da jornada. Tudo é definitivo, tudo, mesmo aquilo que é temporário, se torna eterno. E não importa o quanto se tente remar contra a maré desse rio metafórico das nossas vidas, é impossível ir contra ela. Todo mínimo acontecimento está marcado no diário da eternidade, e nunca será apagado.

E é sobre isso que eu me vejo pensativo hoje. A vontade que mora dentro do nosso ser, de se lutar contra essa natureza definitiva da vida, de mudar coisas que já estão feitas, de voltar ao passado.

            Todos nós, cedo ou tarde, já fomos assombrados por essa vontade. É natural, é algo que está no nosso DNA, nas nossas almas. Pois nós não sobrevivemos, nós vivemos, e aproveitamos a vida. Seja suas partes boas e suas partes ruins, nós damos sentido às nossas existências nos encantando e nos assustando com tudo que encaramos nos caminhos que nos são impostos e naqueles com quem escolhemos trilhar. Nós gostamos tanto da vida que queremos viver novamente vários desses momentos, seja do mesmo jeito, seja mudando de forma sutil ou drástica. O desejo de se voltar atrás, e trilhar determinadas partes da jornada é algo que nos assombra desde que nos demos conta que podíamos pensar. 

            Pois nós não só passamos pela vida, nós a aproveitamos na sua integralidade, com todas as suas possibilidades. Mas nós não temos ainda a maturidade para lidar com o caráter definitivo que rodeia cada aspecto dela. Nós queremos de forma literal aproveitar cada uma das possibilidades da vida, mesmo que isso signifique voltar no tempo e refazer nosso caminho. Mas infelizmente isso não é possível.

            Somos feitos de vontades impossíveis e lembranças inapagáveis.



 


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