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As histórias que definharam na soleira da existência

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                    Há, dentro de nós, uma imensa biblioteca. Nela, estão todos os livros que nós nunca escrevemos. Lá estão os romances que começamos e abandonamos, os poemas que ficaram apenas no rascunho, aqueles projetos que nunca nem foram para o papel. São milhares, talvez até milhões de páginas, todas em branco, todas ainda por preencher. Mas, no entanto, cada uma delas tem um título, tem uma sinopse que morreu na intenção . Essas histórias são a nossa grande expressão paradoxal, elas existem mesmo não existindo.             Esta biblioteca é o cemitério dos nossos sonhos. Cada livro não escrito é um sonho que morreu antes mesmo de nascer. Uma ideia que tivemos e simplesmente não desenvolvemos, uma história que imaginamos, mas nunca contamos. Morreram por preguiça, por medo, covardia, falta de tempo, ou até mesmo aquele choque letárgico que nos bate eventualmente...

O esplendor do fim: sobre aprender a morrer como as folhas.

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              Chegou o outono, e as folhas morreram. Mas a morte delas se deu de uma forma tão bela e sublime que nem parece a materialização da ideia que nós temos sobre morte. Parece mais com uma festa. Uma festa na qual a anfitriã e protagonista veste-se de um vestido dourado e dança pelo ar, enquanto canta seu último adeus, até tocar o chão. E cobre esse chão com um tapete de beleza digna do mais esplêndido castelo, habitado pela maior das rainhas, a mãe natureza. As folhas celebram a sua própria morte e, fazendo isso, dão ao mundo a sua maior lição: Como morrer com dignidade.             Nós não sabemos morrer. Agarramo-nos à vida com unhas e dentes, negamos sua finitude até que o fim, de fato chega. Nos envergonhamos da velhice, da maior expressão de passagem do tempo, da vida vivida. Escondemos nossas rugas, pintamos nossos cabelos, mentimos para nós mesmos. Fazem...

Sobre desistir de buscar as grandes respostas e passar a apreciar as pequenas perguntas

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                  A busca pelo sentido de tudo é uma estrada que construímos com pedregulhos de angústia. Andamos infinitamente, calejamos nossos pés por um caminho muito difícil de trilhar, acreditando que no final encontraremos uma declaração escrita no céu, uma espécie de equação definitiva que desvende os mistérios que assolam nossa alma. Nós nos deleitamos com o vento soprado em nossas costas durante essa trajetória, dividimos a jornada em categorias, esquartejamos nossas percepções, despedaçando o mundo em busca de um eixo oculto. Até que um dia, exaustos, olhamos para frente e para trás e percebemos que não chegamos e nem vamos chegar a lugar nenhum . Diante de nós encontra-se uma estrada infinita, sem destino certo. Ela se desfaz, não com um estrondo, mas com um suspiro, com a rendição. E no silêncio que se segue, percebemos que o clichê é absolutamente real, a resposta nunca esteve no final, mas s...

A história finita e trágica que, conscientemente, escolhemos escrever juntos quando decidimos amar.

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                      Há uma certa epifania que eventualmente toda alma madura encontra: que o amor que habitamos, ou buscamos habitar, não é uma catedral de pedras, mas uma tenda de pano. Nós construímos suas paredes com palavras que sempre significam menos do que prometem. Fazemos promessas que duram apenas o tempo necessário para serem ditas. O “para sempre” é uma figura de linguagem, uma simples metáfora.                 A epifania se dá assim, no auge do paradoxo da maturidade afetiva. Não há mais uma convicção cega de se ter encontrado a verdade absoluta no outro, mas há a coragem de abraçar conscientemente ficção que se decide criar conjuntamente. Sabemos, no fundo de nossas almas, que o “amor” como entidade absoluta não existe, o que existe é um ato contínuo de amar. Que é um verbo, por natureza, frágil e transitório. Aquilo que chamamos ...

A Insurgência Poética Contra o Infinito

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                         A virada de um ano para outro, em termos pragmáticos, não é nada. Apenas mais um dia passado, apenas uma volta completa em volta do astro no   nosso sistema planetário, uma volta contada a partir de um ponto imaginário que nós mesmos criamos e atribuímos uma lógica e um significado. A passagem de um ano para o outro, na prática não é nada, é apenas um símbolo. Mas símbolos podem ser a coisa mais poderosa que existe.                 Vivemos em um universo que nos ignora, que nos impõe algumas poucas leis, mas que não nos explica nada. Dentro das nossas mentes, onde temos nosso próprio microverso particular, sobre o qual sim nós temos algum controle, onde reina nossa própria subjetividade, tudo e qualquer coisa tem o valor que nós quisermos atribuir. Sendo assim, símbolos podem significar desde o nada até o tu...

A pronúncia da criação por um grão de areia

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  Em um deserto vasto e silencioso, sob um céu coalhado de estrelas antigas, um único grão de areia, ínfimo e insignificante, é atingido por um raio de luz lunar. Nesse instante preciso, ele não é apenas sílica e poeira, mas um microcosmo, um altar. Ele carrega em sua estrutura atômica a memória de todas as explosões estelares que forjaram os elementos de sua existência mínima. Ele é o resíduo final de um gigante que morreu, uma herança cósmica solidificada. E quando a luz o toca, ele não reflete, mas  relembra . É como se, por uma fenda microscópica na realidade, todo o esquecido rumor da criação, todo o imenso e incompreensível projeto do universo, se concentrasse naquela partícula ínfima. O grão, então, não pensa, não questiona, ele simplesmente  é , com uma intensidade tão absoluta que se torna um receptáculo onde a matéria e a eternidade se fundem. Esse é o momento da pronúncia. Não um som que ecoa os ouvidos, mas uma verdade que se desdobra em silêncio, uma epifan...

A arqueologia do efêmero - Quando se lida com pólen microscópico e não fósseis monumentais.

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    A história é escrita pelos pequenos detalhes. Sempre vai haver grandiosidade na pequenez.  Assim como os pequenos eventos definem os grandes e moldam os acontecimentos do mundo, podemos nos ater hoje aos pequenos episódios que, por mais sutis e carregados de discrição que possam ser, são tatuados na nossa memória. De modo que, o elixir que te energiza para seguir em frente através de uma motivação nostálgica ou o veneno que te corrói eternamente como um ácido invisível, tem a mesma fonte. Não são as memórias de grandes acontecimentos, mas sim a dos pequenos detalhes que jamais deixam de te acompanhar.     A força das pequenas recordações está justamente na sua aparente insignificância. Elas não são combatidas. Não são diluídas pela austereza de um luto declarado que usamos para enfrentar nossas maiores tragédias. A sutiliza das memórias secundárias não se apresenta para nós como o buraco no céu que figurativamente vemos ao vivenciar nossas lástimas mais mar...