O esplendor do fim: sobre aprender a morrer como as folhas.

 

            Chegou o outono, e as folhas morreram. Mas a morte delas se deu de uma forma tão bela e sublime que nem parece a materialização da ideia que nós temos sobre morte. Parece mais com uma festa. Uma festa na qual a anfitriã e protagonista veste-se de um vestido dourado e dança pelo ar, enquanto canta seu último adeus, até tocar o chão. E cobre esse chão com um tapete de beleza digna do mais esplêndido castelo, habitado pela maior das rainhas, a mãe natureza. As folhas celebram a sua própria morte e, fazendo isso, dão ao mundo a sua maior lição: Como morrer com dignidade.

            Nós não sabemos morrer. Agarramo-nos à vida com unhas e dentes, negamos sua finitude até que o fim, de fato chega. Nos envergonhamos da velhice, da maior expressão de passagem do tempo, da vida vivida. Escondemos nossas rugas, pintamos nossos cabelos, mentimos para nós mesmos. Fazemos de tudo para negar que a vida é um caminho a ser constantemente seguido até que se chegue ao fim. E quando esse fim chega, é feio, cheio de angústia, negação e medo. Nós não sabemos morrer, pois não aprendemos com as folhas. Não entendemos a lição que a natureza quis nos ensinar. Não sabemos que a vida é bela, mesmo no seu fim. Que a morte é o último momento para se viver, então que ela seja uma despedida bonita, não dolorosa.

            A poeira de ouro das folhas de outono nos ensina que a beleza não é inimiga da morte. Pelo contrário, a morte pode ser o momento mais sublime da vida. A morte é quando somos, de fato, livres. Quando nós paramos de lutar, de resistir, de negar. É quando aceitamos, da forma mais serena, o fim de um ciclo, de uma história maravilhosa, de uma experiência única para cada indivíduo. Existir é uma aventura. A aceitação do “final” traz uma paz que a agitação do “meio” nunca pôde proporcionar.

            Por isso, o cair das folhas não me proporciona tristeza. Sinto, ao contempla-las, em sua morte, a mais profunda admiração. Admiro a coragem de se desprender do ramo, a leveza com que dançam no ar, plenitude com a qual cobrem a terra. E eu penso: é assim que eu quero partir. Também quero, no meu fim, vestir as mais belas cores. Quero dançar alegremente, mesmo que seja a dança da morte. Quero cobrir esta terra com o melhor que houve em mim. Que o final seja o momento mais bonito da minha história e que a poeira que sobrou de mim seja testemunha que eu existi. Que assim como as folhas, que caem no outono, eu saiba fazer do último verso o mais bonito de toda a canção.




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