Entre Sonhar e Desistir: Como a esperança pode se tornar nossa maior inimiga
Entre Sonhar e Desistir
Como a esperança pode se tornar nossa maior inimiga
O interessante de se falar sobre sentimentos e questões internas dos seres humanos é que elas são, por natureza, de caráter subjetivo. Sendo assim, estão sujeitas às mais variadas interpretações. Estando elas todas corretas, pois trata-se de um assunto que foge do absolutismo teórico. Damos aí um grande valor aos variados pontos de vista.
Hoje eu gostaria de falar sobre algo que, embora não seja
necessariamente um sentimento, pode-se dizer que está no mesmo campo
mental/espiritual dos sentimentos humanos mais importantes . Me
refiro a algo chamado: esperança. Hoje gostaria de refletir um pouco sobre o que
ela representa nas nossas vidas e os dois principais pontos de vista que vejo à
luz dos quais ela pode ser interpretada.
Esperança, de modo bem primitivo, pode ser definida como
uma espécie de expectativa. Óbvio que há muito mais que isso, mas de maneira
bem simples e de fácil compreensão podemos nos referir a ela como uma
expectativa de algo que esperamos, queremos ou precisamos muito. E é bem sobre isso
que chegamos em duas acepções básicas sobre esse tema.
Recorrendo a uma concepção dualista simplista, chegamos aos
conceitos de lado bom e lado ruim da esperança. De fato, isso é algo pouco discutido
pois a maioria das referências sobre esse tema, seja na literatura, dramaturgia,
artes em geral ou mesmo no conhecimento comum, trazem esse conceito apenas e
unicamente como positivo, algo a ser almejado, uma virtude que nunca deve se
perder, algo que nos torna humanos. E como nas reflexões subjetivas humanas não
há certo ou errado absoluto, esses pontos de vista de fato não estão errados. Mas, na minha opinião, não trazem a verdade completa.
Há um outro lado da esperança que precisa ser observado.
Esse é um tema que devemos falar sobre. Pois se a esperança pode de fato ser um
reflexo do espirito indomável humano, se ela pode ser a força motivadora para
realização de sonhos, ela também pode ser um veneno amargo, uma brasa torturante
que queima de uma forma dolorosa no seu peito. Uma âncora que te prende a algo
que nós temos uma imensa dificuldade em admitir que existe: causas perdidas.
Nem tudo na vida é sobre força de vontade, nem tudo depende
do quanto você queira, tente ou se esforce para conseguir. Há sim objetivos inalcançáveis,
apesar de não ser bonito ou fofo falar sobre. Desistir é sim as vezes não
só a melhor, mas também a única opção.
Somos doutrinados a achar que se queremos muito algo
devemos tentar e lutar até conseguir. “Só é derrotado aquele que desiste” dizem
eles. Mas qualquer ser humano adulto que já refletiu muito sobre sua vida e de
seus pares já chegou á amarga conclusão que a vida real é muito mais complicada
que uma simples frase de efeito motivacional.
Nem todos os objetivos são alcançados, nem todos os
planos funcionam, nem todos os sonhos se realizam. Não importa o quanto você
queira, lute e se dedique, as vezes simplesmente não acontece, e isso não é o
fim do mundo. E são nesses casos que a esperança pode deixar de ser essa força
motivadora para se tornar uma âncora maléfica que te prende em um porto de
estagnação e não te deixa zarpar para novos horizontes. Nesses casos, ao
contrário do que diria toda e qualquer frase bonita de livros de aventura, o
conselho certo seria: abandone a esperança, pois ela deixou de ser sua amiga e
passou a ser sua inimiga.
A vida é feita tanto de vitórias quanto de derrotas. Portanto,
saber viver é estar preparado para ambas.
A esperança vazia, a expectativa de um objetivo inalcançável
é um veneno que pode corroer sua alma e prolongar o sofrimento de uma derrota.
Afinal de contas, derrotas são partes essenciais nas nossas vidas, são as melhores
professoras, são aquelas que nos derrubam para que consigamos nos levantar e
seguir em frente. Algumas coisas estão fora do nosso alcance, e não adianta
lutar contra o universo por elas, ele sempre vai ganhar.
É preciso admitir a derrota para que se possa sacudir a
poeira e seguir em frente. A vida nos força a ser versáteis. Nós somos
biologicamente seres adaptáveis, que conseguiram se adequar a praticamente
todos os ambientes agradáveis e desagradáveis que esse planeta tem a oferecer.
Portanto nós podemos nos adequar às dificuldades e barreiras que a vida põe em
nossos caminhos.
Que a esperança seja sempre a vela que projeta o barco da
sua vida para frente e nunca a âncora que impede ele de seguir.
Lute pelos seus objetivos e use ela de força motriz para
te guiar, mas esteja sempre atento quanto a abandonar um horizonte inalcançável
e prejudicial. Tempestades de fato formam bons marinheiros, mas há aquelas que
naufragam navios, e nenhum marinheiro é bom quando está no fundo do mar.
Há sonhos que não são para ser realizados, mas para ensinar a arte de renascer do próprio fracasso.
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