Entre Eros e Thanatos


    Eu já falei um pouco aqui sobre as diferenças primordiais entre paixão e amor. Posteriormente, pretendo escrever de forma mais aprofundada sobre esse segundo tema. Mas hoje chegou a vez de falar sobre paixão. Sobre isso que pode nos levar ao céu e ao inferno quase que simultaneamente. Isso que mais parece um adoecimento mental, ou uma espécie de transe hipnótico. Que nos tira total e completamente a razão e o bom senso. Uma mistura por vezes bonita e por vezes horrível de prazer e sofrimento.

    Fala-se muito do amor, quando na verdade trata-se de apenas paixão. Ambos são sentimentos, isso é óbvio, e na condição de sentimentos, não podem ser quantificados ou qualificados, dando ao que vos fala uma licença quase poética para conjecturar aquilo que bem entender a respeito do seu entendimento sobre o tema. Mas no que tange esses dois sentimentos, um é de fato mais racionalizado que o outro, um deles é mais domesticável, enquanto o outro é mais selvagem por assim dizer. Que tratemos então sobre a selvageria afetiva que é a paixão.

    Algumas pessoas vivem vidas inteiras sem compreender de fato como esses sentimentos se dão e dessa forma entender como lidar com eles. Mas para aqueles bem afortunados, que racionalizaram algumas das suas experiências e transformaram isso em material didático (como eu), é de fato interessante observar e sentir oque essa espécie de psicopatologia natural pode fazer com nós mesmos e com aqueles que nos rodeiam.

    Se apaixonar é como ser atingido por uma avalanche. É algo violento do ponto de vista interno. Dizem alguns cientistas que tem efeitos similares aos do consumo de algumas drogas (Sou careta, mas não duvido). Dentro de si, a sensação é de que é eterno, é de que nossa vida agora se resuma àquilo, de que nada mais importa, nem nós mesmos, tudo oque importa é a união com a pessoa pela qual se está apaixonado. Não é a toa que em inglês o termo para se apaixonar é fall in love, com ênfase nesse fall que significa cair. Pois se apaixonar é quase como de fato pular de um precipício.

    Não se trata de algo construído, de algo planejado, de algo pensado ou qualquer adjetivo que defina preparação. Nunca se está preparado para isso. Acontece do absoluto nada e se torna absolutamente tudo. E o efeito psicológico e psicológico é devastador. A paixão ocupa sua mente de tal forma que de fato deixa-se de se importar com absolutamente tudo que não esteja com ela relacionado. Veja que perigoso. A pessoa apaixonada perde peso, pois não se importa mais com se alimentar, ela se prejudica em estudos ou trabalho, pois esses também deixam de ser importantes. De alguma forma, esse sentimento te convence internamente de que vale a pena abrir mão de absolutamente tudo para fazer o pretenso relacionamento acontecer (e há loucos que o fazem).

    Há beleza e horror nisso. Se apaixonar é inebriante, a alegria absurda que se tem a qualquer mero sinal de possibilidade de concretização daquilo que se pretende com a pessoa desejada é indescritível. A presença de tal pessoa é algo que te afeta tanto que pensa-se estar sonhando. Ficamos figurativamente nas nuvens. Mas ai vem a parte feia da coisa toda. Se apaixonar é se apequenar tanto diante de uma pessoa ou possibilidade que o sofrimento é o sofrimento que a acompanha é total e completamente inevitável. Seja na maior ou menos intensidade, há sofrimento. A menos demonstração ou indicio de possibilidade daquilo não durar, causa sofrimento. 

    A paixão é uma droga tão poderosa que a mera ideia de perdê-la já causa crises de abstinência devastadoras.

    E quando de fato, o objetivo não é atingido. Por qualquer motivo que seja a pessoa por quem se apaixonou não permaneceu com você. O sofrimento é absurdo. Novamente é como se nada na vida mais importasse e a sua miséria fosse incomparável com a do mais sofredor dos seres humanos. Pensa-se que a vida como um todo não faz mais sentido e há uma vontade genuína de "desaparecer".

    Ao final, aqueles adultos, que já passaram por isso, lidam com a paixão de três formas diferentes. 

    1) Há quem se vicie na parte boa da paixão. Se vicie de tal forma que se apaixonar inúmeras e incontáveis vezes durante a vida. De forma intencional, se entrega facilmente a qualquer lampejo desse sentimento para poder viver e ter aquela sensação de embriaguez afetiva tão boa que ele traz, especialmente no inicio. Mas há um perigo nisso pois, se a paixão termina por ser um sentimento menos profundo que o amor, ele se torna ainda mais raso para essas pessoas, sendo difícil que ele um dia evolua para algo mais duradouro. Fora que o sofrimento delas vai ser sentido na mesma proporção que a felicidade. É uma vida de constante dualidade.

2) Há pessoas que são tão afetadas pelo sofrimento que a paixão traz que se fecham total e completamente para ela. Esses indivíduos fogem de qualquer indicio de que vão se apaixonar. Fugindo desse sentimento como o diabo foge da cruz. Comportamento esse que é tão ou até mais danosos do que o supracitado. Tendo em vista que se abster de sofrer é também se abster de ser feliz. Uma vida apática não é uma vida que vale a pena de ser vivida.

3) Há aqueles que conseguem racionalizar o máximo possível esse sentimento e suas sensações. De modo que aprendem lições cada vez que passam por eles afim de um dia, conseguir lidar de forma saudável com tudo isso. Que forma seria essa? Nem se viciar e nem fugir. Se permitir, com cautela. Para que nem se vicie nesse sentimento e se entre em qualquer mera fagulha afetiva que se encontre pelo caminho, mas que também não se tenha medo de se permitir sentir aquele sentimento, quando a vida ou o acaso te trouxer ele.

    Ser feliz e aproveitar ao máximo o momento, sempre que a certeza da possibilidade e grande probabilidade do fim rápido. Se permitir sofrer quando ele chegar, sempre com a certeza absoluta de que o mundo não acabou e logo todo sentimento ruim passa, ou no mínimo para de doer. 

    Um dia, em uma dessas paixões, você encontra o amor da sua vida. Cedo ou tarde vai aparecer. E não falo amor da vida no sentido de alguém que o universo ou destino escolheu para você. Mas sim uma pessoa que vai se dar tão bem com você, que vai corresponder tanto seus sentimentos e encaixar tão bem que, uma vez que seus caminhos se cruzarem, vai ser muito difícil que voltem a se tornar separados (mas podem voltar, lembre disso).

    Se apaixonem. Sintam. Vivam.



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