A história finita e trágica que, conscientemente, escolhemos escrever juntos quando decidimos amar.

 

                Há uma certa epifania que eventualmente toda alma madura encontra: que o amor que habitamos, ou buscamos habitar, não é uma catedral de pedras, mas uma tenda de pano. Nós construímos suas paredes com palavras que sempre significam menos do que prometem. Fazemos promessas que duram apenas o tempo necessário para serem ditas. O “para sempre” é uma figura de linguagem, uma simples metáfora.

                A epifania se dá assim, no auge do paradoxo da maturidade afetiva. Não há mais uma convicção cega de se ter encontrado a verdade absoluta no outro, mas há a coragem de abraçar conscientemente ficção que se decide criar conjuntamente. Sabemos, no fundo de nossas almas, que o “amor” como entidade absoluta não existe, o que existe é um ato contínuo de amar. Que é um verbo, por natureza, frágil e transitório. Aquilo que chamamos de amor, é uma narrativa escrita com duas cabeças e quatro mãos, um livro cheio de capítulos com mal entendidos, parágrafos de silêncio, linhas desconfortáveis e pontuações de felicidade.

                Essa percepção poderia ser a mais triste das solidões. O saber que estamos inventando o significado enquanto caminhamos no nada ao rumo de nada. Mas a verdadeira profundidade, o ápice dessa epifania chega no próximo passo: escolher, todos os dias, virar a página dessa história, sabendo que ela, inevitavelmente, termina em tragédia, ou mesmo em lugar nenhum. Não há moral da história. Ela não será recontada ou relembrada. Ela não tem sentido e vai se perder no abismo da trivialidade.

                A maturidade foge da ingenuidade, ela vem do conhecimento mais trágico e libertador, e só está completa quando a alma que escreve com você também escreve sabendo. Quando se sabe que palavras são insuficientes, que os personagens que interpretamos são inconsistentes, que a narrativa nem sempre é compreensível, que não há garantia alguma de um final feliz. E ainda assim, encarar uma página em branco toda manhã, trazendo sua caneta metafórica cheia de boas intenções.

                Amar com maturidade é perceber que está escrevendo sobre nada. Construir uma espécie de mitologia ateia intima, de cujos deuses se tem certeza da não existência, e mesmo assim lhes oferecemos oferendas. É acordar e decidir que a página de hoje terá mais paciência do que raiva, mais calma do que desespero, mais espaço em branco do que palavras pretensiosas.

                No mundo de fantasia compartilhado, o “nada” sobre o qual se escreve se transforma no tudo que importa. Pois no vácuo entre nossas intenções, e no silêncio ensurdecedor das palavras que escrevemos, existe uma única verdade incontestável: o amar é uma escolha e uma criação nossa, tem o significado que nós escolhemos dar. É uma história em branco, sem destino pré-estabelecido.

                O amor maduro não se sustenta na falsa descoberta de uma alma gêmea predestinada, mas sim na coragem diária de se debruçar nessa mesa imaginária e escrever, linha após linha, palavra após palavra, essa história que tem como único propósito o ato compartilhado de escrevê-la. Estando cientes que, quando a última página chegar, não haverá conclusão ou moral da história, apenas a reconfortante consciência que, por um certo tempo, dois seres humanos olharam para o vazio e, juntos, decidiram preenche-lo com sentimentos. Sentimentos verdadeiros, mas finitos. Sentimentos desnecessários, mas munidos da mais bonita vontade.

                A história do nada se torna tudo, pois não foi escrita para a eternidade, mas para o instante. E nesse instante, a ilusão se torna suficientemente real para nos sustentar, como um acordo sagrado entre duas almas que, sabendo-se sozinhas nesse universo, escolheram sonhar o mesmo sonho consciente, escrever a mesma fantasia. Até que a última palavra sepulte o que nunca foi, e nunca será eterno.

               




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