As histórias que definharam na soleira da existência
Há, dentro de nós, uma imensa biblioteca. Nela, estão todos
os livros que nós nunca escrevemos. Lá estão os romances que começamos e
abandonamos, os poemas que ficaram apenas no rascunho, aqueles projetos que
nunca nem foram para o papel. São milhares, talvez até milhões de páginas,
todas em branco, todas ainda por preencher. Mas, no entanto, cada uma delas tem
um título, tem uma sinopse que morreu na intenção. Essas histórias são a nossa
grande expressão paradoxal, elas existem mesmo não existindo.
Esta
biblioteca é o cemitério dos nossos sonhos. Cada livro não escrito é um sonho
que morreu antes mesmo de nascer. Uma ideia que tivemos e simplesmente não
desenvolvemos, uma história que imaginamos, mas nunca contamos. Morreram por
preguiça, por medo, covardia, falta de tempo, ou até mesmo aquele choque letárgico
que nos bate eventualmente e nos impede de botar qualquer plano em prática.
Esses sonhos morreram porque não mereciam viver. Ou porque nós não merecíamos vive-los.
Algumas
vezes, entramos nessas bibliotecas e exploramos suas estantes. Vemos os
títulos, imaginando o conteúdo, imaginando como como seriam aquelas histórias
de tivessem, de fato, sido escritas. Será que teria sido empolgante? Monótono?
Será que aquele romance teria um “felizes para sempre”? Ou será que teria um
final trágico nos moldes de Romeu e Julieta? E se aquelas cartas, tão
fartamente pensadas e planejadas, tivessem sido escritas e enviadas? Será que teriam
sido lidas com carinho? Será que o destinatário iria responder? Cada título é
uma pergunta, cada pergunta é uma ferida.
Pode-se
imaginar que sonhos não realizados são sonhos perdidos. Na realidade, eles são
guardados. Estão ali, naquela biblioteca que mais parece uma sepultura,
esperando. Quem sabe, um dia, em um momento de coragem ou até mesmo de desespero,
nós não voltamos a escrever? Talvez um dia, do absoluto nada aquela história
que ficou somente no campo da intenção comece a ser escrita. Eu lhe digo, talvez
ela seja péssima, mas talvez seja linda. Apenas escrevendo podemos saber a
resposta.
Mas até
lá, as páginas permanecem em branco. Ficam guardadas dentro de nós. Vazias,
silenciosas e por que não dizer, perfeitas? Afinal, um sonho não escrito é um
sonho que nunca vai falhar, embora também nunca vá se realizar.
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