A arqueologia do efêmero - Quando se lida com pólen microscópico e não fósseis monumentais.

    A história é escrita pelos pequenos detalhes. Sempre vai haver grandiosidade na pequenez.  Assim como os pequenos eventos definem os grandes e moldam os acontecimentos do mundo, podemos nos ater hoje aos pequenos episódios que, por mais sutis e carregados de discrição que possam ser, são tatuados na nossa memória. De modo que, o elixir que te energiza para seguir em frente através de uma motivação nostálgica ou o veneno que te corrói eternamente como um ácido invisível, tem a mesma fonte. Não são as memórias de grandes acontecimentos, mas sim a dos pequenos detalhes que jamais deixam de te acompanhar.
    A força das pequenas recordações está justamente na sua aparente insignificância. Elas não são combatidas. Não são diluídas pela austereza de um luto declarado que usamos para enfrentar nossas maiores tragédias. A sutiliza das memórias secundárias não se apresenta para nós como o buraco no céu que figurativamente vemos ao vivenciar nossas lástimas mais marcantes. Não, elas se escondem nas pequenas frestas do nosso cotidiano.
    Não é fácil lutar contra um golpe direto, mas é quase impossível se defender de um golpe ardiloso. O ataque das diminutas recordações aparece sem anúncio, te flanqueando como um inimigo que está sempre te aguardando para uma emboscada. Pode vir como o cheiro de um perfume, o som de uma risada, uma música esquecida ou até uma cor aleatória. Esse golpe não anunciado te atinge com força total para te derrubar e te queimar de dentro para a fora com o veneno nostálgico imune à resignação.
    Memórias dolorosas são como uma praga de baratas. Você pode enfrenta-las com força total, usar o veneno mais poderoso que puder, mas sempre vão sobrar algumas. Algumas poucas, pequenininhas, que quando você menos esperar vão aparecer na sua frente.
      Não é possível se livrar, ou nem mesmo se preparar para isso. Forte ou fraco, o golpe é certo. Vez ou outra, ele vai te derrubar.



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