Sobre desistir de buscar as grandes respostas e passar a apreciar as pequenas perguntas

 

                A busca pelo sentido de tudo é uma estrada que construímos com pedregulhos de angústia. Andamos infinitamente, calejamos nossos pés por um caminho muito difícil de trilhar, acreditando que no final encontraremos uma declaração escrita no céu, uma espécie de equação definitiva que desvende os mistérios que assolam nossa alma. Nós nos deleitamos com o vento soprado em nossas costas durante essa trajetória, dividimos a jornada em categorias, esquartejamos nossas percepções, despedaçando o mundo em busca de um eixo oculto. Até que um dia, exaustos, olhamos para frente e para trás e percebemos que não chegamos e nem vamos chegar a lugar nenhum. Diante de nós encontra-se uma estrada infinita, sem destino certo. Ela se desfaz, não com um estrondo, mas com um suspiro, com a rendição. E no silêncio que se segue, percebemos que o clichê é absolutamente real, a resposta nunca esteve no final, mas sim no durante.

                No plano dos dias comuns, pequenas perguntas começam brotar nas nossas mentes. Elas surgem não como grandes questionamentos e hipóteses metafisicas, mas como pensamentos intrusivos, questionamentos de aparente trivialidade. “Porque a simples e inerte companhia dessa pessoa faz meu mundo parecer diferente?” “Qual história não contada carrega o olhar baixo daquele estranho para mim no meio da rua?” “Que lugar vai iluminar aquele último raio de sol quando desaparece do nosso horizonte?” São interrogações banais, despretensiosas, que não exigem uma vida inteira de reflexão e nem a complexa elaboração de uma tese. Elas são frestas. Pequenas aberturas na superfície escura do mundo real, por onde entra uma luz que não é nem de longe bastante para iluminar tudo, mas que basta para nos mostrar que podemos perceber a textura, a cor e a profundidade da existência, mesmo que não a entendamos completamente.

                Abraçar essas perguntas é jogar a bússola fora e se guiar pelo instinto. É aceitar que os caminhos da vida não são desvendados olhando um mapa, mas sentindo um aroma. Um aroma impossível de se capturar ou reproduzir, somente se poder respirar. A sabedoria deixa de ser uma posse, passa a ser uma postura: permanecer curioso diante do trivial, atento ao detalhe que não se explica, mas que se sente. A grande busca pelo sentido único e as barreiras do conhecimento do universo se desfazem, em seu lugar surge um quadro vivo de significados provisórios, construídos no agora. O questionamento se torna contemplação.

                Nesse estado, a existência deixa de ser um problema a ser resolvido e passa a ser uma conversa a ser sustentada. Uma conversa consigo mesmo e com o mundo, com seus ruídos e silêncios. Com suas belezas ocultas e suas dores cotidianas. A paz não vem de resolver, mas de se apaixonar pelo mistério. A vida, no caso, pode não ter um sentido. Mas tem um sabor, um cheiro, uma textura, um peso, tem calor, tem frio, as vezes é leve, as vezes pesada. A vida é volátil e está em constante mudança. Talvez o ato mais revolucionário seja justamente esse: deixar de exigir um roteiro e começar a responder, com a própria presença, as pequenas e eternas perguntas que ela, em sua generosidade silenciosa, nunca para de sussurrar.



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