Perdoar-se - O caminho silencioso de quem precisa conviver com suas próprias falhas
Perdoar-se
O caminho silencioso de quem precisa conviver com suas próprias falhas
É muito confuso, quando as pessoas falam sobre perdão, chegar no conceito do que seria perdoar a si mesmo. O que isso significa? Eu magoei a mim mesmo? Fiz raiva a mim mesmo e portanto estou com raiva do meu eu? Isso sempre me confundiu muito, nunca consegui entender completamente. Mas como a maior parte das coisas da vida, é mais fácil aprender na prática. Então foi só quando me deparei com a situação onde teria que perdoar a mim mesmo que entendi o que isso significava.
Se perdoar é uma coisa ligada a outra palavra, outro conceito muito importante chamado ''arrependimento''. Se perdoar na verdade é parar de se arrepender, ou melhor, parar de sofrer pelo arrependimento. Mesmo porque o arrependimento em si significa, na minha visão, o desejo de ter feito algo de forma diferente, não é em si algo necessariamente negativo. O negativo em si é na verdade o sofrimento que geralmente o acompanha. É possível se arrepender de algo e lidar com isso de forma leve e tranquila, sem precisar conviver com o sofrimento. "Eu queria ter feito isso de forma diferente, mas tudo bem, a vida que segue."
Eu quero falar hoje sobre uma coisa diferente. Sobre um arrependimento que gera de fato sofrimento, em alguns casos até bem intenso. E é sobre esse tipo de situação que temos que aprender, na prática, aquele conceito inicialmente confuso de ''se perdoar''.
Nós naturalmente sofremos muito por coisas que não podemos controlar. Tragédias por exemplo, morte, esse gênero de coisas. Nós sofremos muito pelas consequências desses eventos incontroláveis, mas dentro de nós, sabemos indubitavelmente que se tratam de acontecimentos de cujo resultado nós temos nenhum controle. Não há o que se perdoar nesse caso. A quem culparíamos? Deus? O tempo? O acaso? Não. Não há culpados tangíveis e nós sabemos disso. O sofrimento é oriundo das consequências do que aconteceu. Nossa raiva é destinada a elas. Quando não se há um culpado, é fácil superar. Não há quem perdoar.
Mas isso se torna diferente em outras situações. Aquelas das quais o conceito do arrependimento deriva. Situações das quais nós sofremos muito com as consequências, mas que dessa vez, não são somente as consequências que nos afetam, dessa vez há quem culpar, dessa vez alguém concreto deu causa a isso: nós mesmos.
É muito difícil conviver com seu algoz. Com a pessoa que deu origem ao seu sofrimento. E quando essa pessoa é você mesmo, é impossível evitar sua convivência perpétua. Por essa razão, são nesses casos que nós precisamos aprender a nos perdoar, pois, caso não o façamos, nós nunca deixaremos de sofrer. Nesses casos nós não sofremos somente pelas consequências, nós sofremos também pela causa. Nós temos que conviver com o fato de que somos a causa a causa do nosso próprio sofrimento, de que somos nossos próprios algozes.
Enquanto não nos perdoarmos, não haverá paz nas nossas vidas. Mas se perdoar é algo extremamente difícil. Se perdoar não é deixar de se arrepender, mas sim não se punir pelas escolhas ou atitudes que se escolheu tomar. Só que de fato, muitas vezes, nós não queremos fazer isso. Nós queremos nos punir. E como não? Quem pode nos julgar? Quem não desejaria punir aqueles que lhe causam dor?
Foi depois de conhecer o sofrimento oriundo de um arrependimento que tive a chance de perceber o que significa se perdoar, e o difícil processo atrelado a isso. Pode demorar muito tempo, pode trazer a tona outras dores. A aflição pode bater de forma latente em diversos momentos. Mas se você tem um bom nível de auto esclarecimento, vai perceber que não há outra escolha.
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