No Jardim das Emoções: Quando o coração navega entre o precipício e o lar.

No Jardim das Emoções

Quando o coração navega entre o precipício e o lar.


            Hoje vou abordar um tema que sempre achei interessante em demasiado. O suprassumo das emoções humanas. Aqueles que frequentemente moldam todas as demais, e por quem todas elas acabam por ser submissas, influenciadas, absurdamente afetadas. Amor e paixão.

                É bom sempre começar com a paradoxal tarefa de definir a linha indefinível que separa essas duas instituições dos sentimentos humanos. Tarefa essa que se torna impossível de maneira objetiva e indiscutível, pois a emoção costuma se opor vigorosamente à razão e portando não pode ser quantificada. A infinda subjetividade humana torna a tarefa de decifrar e definir tais matérias algo altamente especulativo e aproximado, algo acima de tudo: discutível. E apesar de alguns aspectos serem de concordância geral e alguns outros até serem definitos com exatidão pelas ciências neurais, no final sempre sobra algo a se discutir. E é pegando esse gancho que já afirmo que o que será narrado aqui e agora não é nada além da minha simples, humilde e aberta à discussão, opinião.             

            Eu costumava ver amor e paixão como antagônicos, tendo em vista que a expressão de ambos tende a ser inversa. Mas hoje vejo de uma forma diferente. Acho que amor e paixão são sentimentos irmãos um do outro. Ambos são nuances do extremamente complexo afeto que as pessoas tem umas pelas outras, afeto esse que é parte determinada por esse desejo e conhecimento, já escrito no nosso DNA, chamado instinto. E parte oriundo dos nossos conhecimentos e experiências sociais adquiridos ao longo da vida.

            Gosto de relacionar diretamente amor e paixão com outros dois termos que expressam de forma breve e resumida, porém bem acurada, como eles dois funcionam.

          Estes  termos são a intensidade e a profundidade. Eles estão intimamente relacionados com nossos conceitos de amor e paixão. Tendo em vista que nos referimos a algo que está no campo metafísico, algo que só pode ser constatado através de atitudes e depoimentos, nada mais justo que os categorizar de acordo com as definições e características dessas mesmas atitudes e depoimentos.

                Atribuindo cada um ao que mais convém, podemos dizer que o amor é marcado pela profundidade, enquanto a paixão é marcada pela intensidade. E isso é bem mais complexo do que aparenta ser. Pois apesar de à primeira vista parecerem até antagônicos, eles são dois lados de uma mesma moeda.    

                Se apaixonar é como cair de um precipício. Paixão é fogo, é ardente, é intenso. Quando nos apaixonamos nosso mundo vira de ponta cabeça. É como se estivéssemos literalmente em outro planeta onde tudo é diferente, tudo se volta ao objeto da paixão. Seu mundo é a outra pessoa e é nele que você quer viver para sempre. Paixão é uma música animada, agitada, que te puxa pra dançar e faz você se entregar. Paixão é um gol do Brasil na final da copa do mundo. Paixão é intensidade.

                O amor é diferente. O amor é calmo, é leve. É como uma música familiar e ambiente que toca constantemente te dando a sensação de estar em casa. O amor é uma bossa nova tocando em um entardecer de domingo sentado a beira da praia tomando água de coco. Amar é estar na plenitude do seu lar. O amor é confortável. O amor é profundo. 

 

                Colocando nesses termos, a maioria das pessoas acaba tendo duas interpretações. A primeira é que esses sentimentos são antagônicos, tendo em vista que suas formas de exteriorização são, à primeira vista, de fato opostas uma a outra. Mas essa visão está de fato deveras equivocada. A segunda opinião, e a mais comum, é que são duas formas de sentir que compõe alguma espécie de escada emocional na relação entre as pessoas. Atribuindo a paixão como uma espécie de pré-amor, afirmando que primeiro nos apaixonamos e depois passamos a amar. Mas essa, apesar de se aproximar da realidade, pois grande parte das relações acontece dessa maneira, é apenas uma compreensão superficial da coisa toda, que de fato é bem mais labiríntica.

                O amor e a paixão não são antagônicos, eles podem acontecer de fato ao mesmo tempo. Sortudos são aqueles que podem dizer que vivem um relacionamento nesses parâmetros. Raros são esses bem afortunados. Mas existem sim muitos casos de amores apaixonados. Quando a relação tem um nível de profundidade e entendimento que transcende o compreensível, mas ao mesmo tempo demonstra aquela intensidade de uma paixão recém descoberta. Oscilando entre a roda gigante e a montanha russa. Vivendo entre a calmaria e a empolgação. Conseguindo aproveitar o melhor dos dois mundos. Estando ao mesmo tempo no aconchego do lar e na adrenalina de uma aventura.

                Assim como também não se trata de uma escada pois, apesar de em grande parte dos casos a paixão chegar primeiro e depois dar espaço para o amor, não é incomum que o caminho seja exatamente o oposto. Algumas pessoas nutrem um amor genuíno por outra pessoa por muito tempo até que um dia são atingidas pelo raio de paixão, tendo seu coração flechado por esse anjo de intenções incógnitas.

                Para além de qualquer consideração, esses dois sentimentos têm seus lados bons e ruins, assim como tudo na vida. Mas se tem algo que eles têm em comum é que valem muito apena de serem vividos. Seja de forma conjunta, seja de forma separada, seja pelo tempo que for, seja na ordem que for. Não existe hierarquia entre eles. Se apaixone, ame. Viva a intensidade e a profundidade. E independente de que caminho a vida te levar no decorrer dessas suas histórias, fique feliz por tê-las vivido. É isso que te torna humano.



 

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