Resignação - A arte de dobrar-se sem quebrar
Resignação
A arte de dobrar-se sem quebrar
Descobri que a principal acepção da palavra resignação é: submeter-se à vontade de alguém ou, veja que marcante, do destino. Esse sentido, carregado de estoicismo, é digno de reflexão. Afinal, como é possível se resignar? E, mais importante ainda, como é possível resistir à necessidade de fazê-lo?
Resignação é, ao mesmo tempo, algo profundamente difícil e absolutamente inevitável. Veja que paradoxo: há situações quase impossíveis de aceitar, que nos causam um misto de sentimentos ruins e intenso sofrimento. Aceitar determinadas realidades pode ser extremamente penoso. Mas, considerando nossa total impotência diante do universo, do tempo e do destino, somos forçados a nos curvar diante da vontade desses três onipotentes.
Entretanto, existe um tipo de resignação ainda mais desafiador. Há fatos que são cientificamente impossíveis de se mudar, e, por sabermos disso, a aceitação se torna um pouco mais tolerável, como um gosto amargo que aprendemos a engolir. Porém, há outras situações cuja transformação não depende do tempo, do universo ou do destino. Elas dependem apenas da vontade de seres humanos comuns como nós, que, mesmo sem serem onipotentes, detêm algo extremamente poderoso: o livre-arbítrio.
De maneira superficial, somos senhores de uma pequena parte do nosso destino. Exercemos esse domínio quando decidimos, conscientemente, como agir e conduzir nossas vidas. E, inevitavelmente, nossas escolhas afetam os que estão ao nosso redor. Podemos impor nossas vontades sobre nós mesmos e também, direta ou indiretamente, sobre os outros.
O problema surge quando somos impactados pelas escolhas dos outros. Existem decisões tão duras que nem o mais poderoso dos homens, nem a mais poderosa das mulheres consegue mudar diante da vontade de outrem e, diante delas, não nos resta alternativa senão nos resignarmos. Isso torna o processo mais complexo, porque não se trata de um curso natural do universo, mas da vontade de outro ser humano. E essa origem nos faz acreditar que a resignação não é a única saída.
A esperança de interferir na vontade alheia, no livre-arbítrio do outro, é uma tentação que acalma e engana nossos corações. Afinal, como somos seres de mentalidade flexível, essa esperança não é totalmente vazia. Mas, embora possível, trata-se de uma esperança perigosamente traiçoeira.
Porque, em muitos casos, sua probabilidade é tão intangível quanto a de voltar no tempo.
Contra certas vontades, contra determinadas decisões não há luta possível.
Só nos resta ela:
a difícil, amarga e inevitável resignação.
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