A Eternidade Mora nos Outros: Não desaparecemos, nos espalhamos em quem nos ama
A Eternidade Mora nos Outros
Não desaparecemos, nos espalhamos em quem nos ama
Minha avó paterna se chamava Edite. Grande vovó Edite.
Nós perdemos ela há alguns anos atrás. Ela desenvolveu
Alzheimer quando eu estava no começo da minha adolescência e aos poucos foi
deixando de ser e lembrar quem era. Eu já era adulto quando ela partiu desse
mundo de vez. Meu convívio e memória com elas são basicamente apenas da
infância.
Vovó Edite era extremamente engraçada e extrovertida. Ela não era aquele tipo de velhinha cheia de pudor e decoro, ela te mandaria à merda se tivesse vontade e faria isso morrendo de rir. E esse é outro detalhe dela que está eternamente tatuado na minha memória: a risada dela. Dona Edite tinha uma risada estrondosa e escandalosa. Aquele tipo de risada que é literalmente contagiosa, que levava todos a rir quando ela começava a gargalhar.
Não havia assunto tabu com minha avó e não havia piada
que não pudesse ser feita. Creio que herdei boa parte da minha personalidade
dela e dessa parte da minha família. Essa genuína falta de polidez que nos
torna pessoas mais palpáveis e bem humoradas. Pessoas em cujas conversas não
faltam infinitas risadas.
Foi muito difícil perder essa minha avó, pois nós a
perdemos aos poucos. Ao longo de 10 anos o Alzheimer foi lentamente apagando
quem ela era, de modo que em seus últimos anos de vida ela já estava em um
estado vegetativo, tendo sobrado apenas o receptáculo do que ela um dia já
havia sido. Até que ela partiu de vez.
Quando nós a perdemos. Revisitei na minha memória todos
os melhores momentos que tivemos com ela. Na minha infância quando ela comprava
coca cola para mim, fazendo os gostos do netinho dela, quando nos meus
aniversários ela me dava uma nota de 20 reais de forma secreta e dizia: “não conte ao
seu pai não”, quando ela me dizia que quando eu crescesse seria tão bonito que
as mulheres rasgariam minhas roupas quando eu passasse na rua (nessa a senhora
exagerou um pouco vovó). Mas o que mais lembro é da sua estrondosa e específica
risada, risada que tinha uma entonação e ritmo únicos no mundo.
Foi muito triste para mim saber que nunca mais ouviria
aquele riso. Que ele existiria apenas e somente na minha memória e em uns
poucos e raros registros em vídeo que tínhamos da minha avó.
Recentemente eu fui a uma outra cidade visitar minha tia,
em ocasião de seu aniversário, essa tia é irmã do meu pai, filha da avó a
que me refiro. Como o elemento central da família era dona Edite, e ela se foi,
naturalmente os demais integrantes acabaram por se distanciar um pouco, e fazia
de fato muito tempo que eu não a via.
Nós fomos à sua casa, comemos bolo, tomamos refrigerante,
conversamos, rimos bastante, interagimos com as demais pessoas que lá estavam,
e o tempo todo eu segurei um nó na garganta que estava a me dar uma vontade de
chorar tremenda. Pois eu percebi que aquela risada que pensei há muito ter
desaparecido da existência ainda existia. Olhei para a minha tia, ouvi sua
conversa, suas piadas e sua risada e vi nelas minha querida avó.
Isso me fez perceber que, mesmo quando nossa vida
inevitavelmente chegar ao fim, nós não desaparecemos por completo da existência.
Algo nosso persiste vivendo naqueles que permanecem aqui. Refletindo sobre
isso percebi que de fato grande parte da minha personalidade é herdada daqueles
com quem convivo. Minha avó se foi, mas parte dela vive na minha tia, em mim,
no meu pai, nos meus primos e em todos com quem ela conviveu por tempo
suficiente para deixar sua marca.
Aqueles que amamos nunca se vão totalmente enquanto permanecemos
aqui. Por mais que passemos a pensar menos neles, por mais que sua memória não carregue
tantas lembranças de alguém, se esse alguém tocou sua alma, então parte do que
você é sempre vai ser a essência ainda viva dele.
Deixe que a marcas dos que você ama vivas em você, e marque
aqueles que te amam para que você viva para sempre.
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