Que cor o céu tinha no dia em que você parou de olhar pra cima?

     Era um azul diferente. Nem mais claro, nem mais escuro. Apenas diferente. Como se fizesse parte de uma paleta de cores única. Uma paleta de cores que não pertencia aos olhos dos homens ou das mulheres, mas sim ao divino, à natureza, apenas àquele instante. Era uma cor que pintores nunca conseguiriam reproduzir. Como se o próprio Deus tivesse diluído safiras no alvoroço do amanhecer. Aquele azul não era para o mundo, não era para ninguém além de você. Pois, por mais que não tenha percebido, aquele dia era único, era seu.

    Nem sempre a realidade chega com um baque, normalmente ela vem de forma lenta, de modo que nem se percebe quando ela chegou. Um dia você ainda possui algum grau de inocência a ponto de se permitir ser uma pessoa sonhadora. Um dia até os sonhos mais impossíveis são tão genuinamente tangíveis na nossa perspectiva que, quando isso vira memória, nos custa a acreditar que um dia já acreditamos.

    Nesse dia o céu tinha uma cor diferente, pois seria o último dia que você poderia olhar para ele com os olhos que ainda tinha. Com os olhos não maculados pela lástima da vida real. Os olhos de um sonhador.

    Mas você não viu.

    Você estava muito ocupado olhando para o chão. Contando seus passos. Mirando o relógio para saber que horas são, para se programar para o próximo compromisso do dia, para a próxima tarefa. Estava muito preocupado em não pisar em algum chiclete no meio da calçada que ficaria preso no seu sapato. Estava preocupado em não se atrasar, em estar bem apresentável. A cor da sua roupa e suas combinações te preocupavam mais do que a cor do manto celestial que te cobria. Não, nesse dia você não olhou para o céu.

    Acontece que o sonhar, morre. E quando me refiro a sonhar, não a sonhos. Falo do verbo, não dos substantivos. Não é que sonhos específicos morreram nesse dia, mas o ato de sonhar em si. 

    Já não fazia mais sentido fazer planos extraordinários. Já não havia validade em conjecturar. Tudo o que se tinha era o hoje e o agora, apenas isso lhe foi dado. E naquele hoje, naquele agora, não se tinha motivo para olhar para o céu. O universo te dava um diamante azul único de mãos abertas, mas você tinha os punhos fechados.

    E aquele azul brilhou, por um dia inteiro. Até definhar e se tornar escuridão, com a noite. Sua beleza não apreciada se tornou lembrança para um universo que não faz registros. Como uma bela flor que murcha sem que hajam testemunhas. Naquele dia, sem que você percebesse, algo em você desistiu de sonhar, desistiu de buscar a beleza e almejar voar no céu infinito. Naquele dia não só os seus pés foram presos ao chão com as inquebráveis correntes da realidade, mas como também foi posto sobre você um teto de vidro fumê que te permite ver o céu, mas nunca mais daquela cor.

    Aquela cor brilhou no céu pela última vez naquele dia. E naquele dia, você não olhou pra cima.




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