O Único Par De Asas No Abismo

     Grande teoria nos persegue. Um boato que só é contado nos becos e vielas mais escuros das nossas almas. A de que o universo, o destino, ou seja lá qual for a entidade ou conceito cósmico em que se acredite, forja para nós uma asa. Repare que não me refiro a um par de asas, apenas uma asa. Uma única asa, incapaz de levantar voo sozinha. Uma única asa que precisa de outra, que encaixe perfeitamente com ela, para que possa voar para fora do abismo escuro de uma vida de solidão. 

    Levamo-nos a crer, nessa visão de universo, onde nós somos seres incompletos. Seres que não somente querem, mas precisam uns dos outros para alcançar a plenitude. A outra asa que falta para que se complete o par, a nossa outra metade necessária, a nossa alma gêmea. Mesmo sem saber, um espera o outro para que possam ter essa espécie de reencontro cósmico orquestrado pelo infinito.

    E aqueles que experimentaram dessa toque são condenados. O milagre é também maldição. Pois essa fusão de almas é tão singular quanto a primeira respiração ou a última lágrima. É um evento único na existência e não mais pode ser repetido. Ou se alça voo para sair do abismo e nunca mais voltar, ou se cai na sua profundeza para nunca mais sair. De fato, se a vida após a morte é  um mistério que nos assombra, a vida após o amor é uma certeza que nos amaldiçoa. Pois ela vai existir, mas de forma distinta. O mundo inteiro se transforma.

    Nós passamos a viver em uma terra chamada "depois". Lugar menos agradável do cosmos. Onde o colorido não tem mais cor, as palavras não tem mais sabor e não há mais qualquer alegria na beleza. Pois apesar do belo ser intelectualmente compreendido, não se sente mais sua textura vibrante. Como se uma espécie de apagão divino tivesse obscurecido toda a sua capacidade de se maravilhar.

    Definitivamente a tragédia não é simplesmente a perda, mas a consciência racional do que foi perdido. Não se sofre por algo idealizado e abstrato, mas por algo concreto e palpável. Algo indubitavelmente real. Uma evidência axiomática da existência de um paraíso. Paraíso esse que se contemplou. De onde se sentiu a brisa e se pôde encantar com tamanha beleza. Mas do qual o acesso está bloqueado para sempre por um portão feio, enferrujado e frio, que não se abre por nada. O maior aríete feito do querer não provoca um mísero arranhão nessa barreira intransponível. Não, seu acesso está negado, para sempre. O mapa para a felicidade agora tem o meio do nada por destino final.

    A maldição se revela diante da impotência perante o futuro. Qualquer novo afeto, por mais real que seja, por mais sincero e verdadeiro, esbarra na parede implacável da completude previamente experimentada. A chama pode até ser real, ela pode acender, queimar e brilhar. Mas o que é a chama de uma vela se comparado ao ardor de um sol? Um palito de fósforo aceso não é o bastante para iluminar uma catedral que é feita para cintilar com os raios de um amanhecer bonito. Sua luz é verdadeira, mas a escuridão é demasiadamente grande para ser vencida. Comparar, nesses casos, não é uma questão de vontade, é fisiológico. Quando o coração está adaptado á uma única frequência, a mais bela melodia do universo não passa de um ruído desagradável.

    E assim se segue. Com a difícil tarefa de carregar nas costas não apenas um mundo inteiro, mas o peso fatigante e descomunal de um universo alternativo. Aquele onde o acaso não foi tão cruel, onde o tempo não se perdeu, onde as palavras foram ditas e as atitudes tomadas. Um universo onde as portas do paraíso permanecem escancaradas e o caminho da felicidade não termina em uma terra submersa. Um universo onde as asas se entrelaçaram e o abismo ficou para trás. Torna-se, então, um náufrago que não está preso em uma ilha, mas em um continente materializado de "se" e "talvez". O único barco que pode te levar para outra terra jaz no fundo de um oceano de lágrimas, tão profundo quanto sua tristeza.

    Não se chora mais pela outra pessoa, mas por si mesmo. Pois todos nós morremos um pouco quando o amor verdadeiro vai embora. Aquela parte de nós que acreditava na beleza do mundo e na conexão de almas se perdeu. Esse é o momento em que arrancamos nossa própria asa e nos condenamos a uma vida eterna na escuridão de um buraco sem fundo. Viramos um relicário vivo do que fomos um dia, guardando as cinzas do único fogo que nos consumiu por completo. Presos ao chão do vazio, impossibilitados de levantar e voar. Pois o único par de asas que poderia nos tirar do abismo já não mais existe.


    



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