Tijolos de névoa construindo castelos no ar


    Existe uma antiga arte, que só é praticada nas solitárias e profundas oficinas da alma humana. Apenas lá é possível exercer esse estranho, curioso e maravilhoso ofício que é capaz de transformar vapor em fundação, em estrutura. Se normalmente, tijolos são feitos com barro, fogo e pedra, aqui são feitos de desejo, da respiração noturna que almeja, que quer, que espera e que sonha. Cada pedra dessa fundação é feita de um "talvez...", a argamassa dele é composta por incontáveis "e se...", transformando tudo isso em uma espécie de matéria metafísica, composta pela fantasia de um devaneio. O arquiteto disso tudo, levanta as paredes e sobe essa edificação encantada com mãos que não tremem, sem fazer esforço, sem suar ou cansaço, pois tem a plenitude da certeza de que a névoa da qual sonhos são compostos não pesa. Os corredores desse lugar são desenhados com a beleza infinita que só pode ser proporcionada pela imaginação, as torres chegam a tocar as nuvens que prometem o céu inteiro, as muralhas são feitas de arco-íris, produzido pela luz que é refratada por uma camada de chuva fina e agradável que não para nunca de cair.

       Esse é um trabalho sagrado: Nele é possível erguer sem levantar peso, sem precisar calcular ou seguir qualquer projeto, sem medo de um possível colapso. Aqui a engenharia obedece todo um novo conjunto de normas e diretrizes, aquelas escritas pelo próprio coração. Aqui as janelas se abrem para paisagens que só podem ser vistas pelos seus próprios olhos, e que se mudam e se moldam de acordo com o ímpeto da sua alma. De modo que cada vez que se olha através delas, se vê um novo horizonte de possibilidades. Essa vista pode te causar um misto de sensações, pois são compostas de dois tipos de beleza: a beleza da possibilidade futura, que empolga e anima, e a beleza da possibilidade passada, que te encanta com uma sensação bonita e ao mesmo tempo triste de maravilhamento nostálgico. São montanhas feitas de chances e oportunidades. São oceanos inteiros de palavras, desde as lá do fundo, que nunca foram ditas, por qualquer motivo que seja, até as que estão na superfície, que compõe as ondas e anseiam por serem proferidas. São florestas inteiras feitas de promessas:  cumpridas, em progresso e esquecidas. O castelo está vivo. Sua existência é alimentada pela lenda de que as raízes de um sonho podem crescer até no vazio.

    No entanto, toda névoa carrega uma relação intrínseca à sua própria existência com o vento metafórico do qual é feito o sopro de realidade que bate na nossa cara em vários momentos da vida. Um vento composto de "não..." que sopra de maneira impiedosa e tem efeito demolidor sobre o castelo dos nossos sonhos. Não há estrondo, nem barulho. Não há confusão ou alvoroço. O colapso se dá na forma de um suspiro. As paredes se desintegram como gotas de orvalho sendo levadas pela brisa fresca da manhã, as torres se desfazem em fios finos de agua condensada e toda sua estrutura termina como um vapor matinal que se forma sobre o teto de estranhos.

Há aqueles que chamam isso de fracasso.
Os amantes do impossível sabem: é a única forma verdadeira de se construir sonhos.

Porque enquanto o concreto racha e o mármore se desfaz em séculos, os castelos de névoa permanecem intactos no reino do quase. Eles não caem: desmaterializam-se, voltando ao estado primordial de possibilidade. Cada tijolo evaporado é semente. Cada torre desfeita é mapa. Cada sala dissipada ensina:

Ilusão não é engano.
É exercício de coragem.

Construir no ar é a mais pura declaração de guerra contra a tirania do "possível". É assinar um pacto com o efêmero, sabendo que a beleza mais vertiginosa vive no limiar do desaparecimento. O vento que derruba não é inimigo é o cúmplice necessário. Ele liberta o construtor para o único ato sagrado:

Recomeçar.

Com a mesma névoa.
Com novos desenhos.
Com a fé do louco que sabe:

Castelos de pedra abrigam corpos.
Castelos de névoa abrigam infinitos.




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