Os quatro toques da morte - Dos arrepios da inocência perdida à paz do esquecimento eterno

 

            Há quem diga que nós, seres humanos, somos tocados pelo impiedoso espirito da morte três vezes. Eu costumo pensar em quatro. A morte sussurra em nossos ouvidos, bate em nossa cara, nos leva embora e por fim, guarda nossos segredos.

            A primeira vez, a morte nos toca, de forma demasiado suave, mas toca. E um toque da morte, por mais brando que seja, é algo de dimensões monumentais. A morte nos toca quando nós, deixamos para trás parte da nossa inocência e nos damos conta da finitude das nossas vidas. Todos os seres humanos adultos já passaram por isso em algum momento da vida. Para alguns, isso é tão marcante que costumam se lembrar com sobeja exatidão o momento em que passaram por tal experiência. Permitam-me exceder a solenidade impessoal sobre a qual costumo escrever para contar-lhes um breve relato pessoal de como foi para mim receber o primeiro toque da morte:

            Desde criança que fui ensinado na fé católica, portanto ideias como Deus e céu sempre estiveram solidamente tatuadas na minha consciência. Havia uma plena certeza que de nós vivíamos nossas vidas até o dia em que iriamos para o céu, seja lá como isso fosse acontecer. Um dia qualquer, em que nada fora do normal aconteceu, sem qualquer motivo aparente, a morte me tocou pela primeira vez na forma de um pensamento. De repente me perguntei: “E se morrer for simplesmente deixar de existir? E se não houver nada após isso?” Nesse momento eu senti, de forma física, quase sobrenatural, o primeiro toque da morte. Um arrepio elétrico tomando conta do meu corpo quando, internamente, certezas há muito tomadas por verdades absolutas se transformaram em dúvidas e medos.

            O primeiro toque da morte mata nossa inocência. Um sussurro cruel acompanhado de choque de realidade que dá e ao mesmo tempo tira o sentido de nossas vidas.

            O segundo toque da morte é quando, demos de plenamente conscientes, lidamos com o luto por alguém muito próximo. Esse é o segundo choque de realidade que temos sobre a finitude do que somos nesse mundo. Muito mais forte que o primeiro, que fica no campo da ideia, esse agora traz uma confirmação palpável de que um dia aquilo que chamamos de vida acaba. Entender e aceitar que determinado alguém não está mais aqui e nunca mais vai estar é algo aterrador. Um baque difícil de superar. Em realidade, muitos não conseguem superar ele nunca.

Quando a morte leva alguém, ela toca em todos os que estão ao seu redor. Ela bate nas nossas caras com sua irremediável inevitabilidade. Todos morremos um pouco quando perdemos aqueles que representam o amor nas nossas vidas.

O terceiro toque da morte não é bem um toque, na realidade ele vai além disso. A terceira vez que esse imperioso espirito nos toca, ele nos carrega. Ele segura nossas mãos e nos leva para longe. Para um lugar que nós não conhecemos, que nunca fomos antes. Um lugar para onde não podemos ser seguidos e de onde nunca vamos sair. Aquilo que conhecemos por vida acaba e a partir daí só nos resta o incógnito reino eterno do além. Além vida, além existência, além consciência. E seja lá o que houver do outro lado, seja uma eternidade de alegria, de sofrimento, de recompensa ou punição, ou até mesmo o perpétuo nada, a eviterna inexistência, o fato é que depois de segurar a mão da morte e seguir para lá, não há mais volta.

A morte nos toca a terceira vez já como uma amiga, uma conhecida de outros encontros. Seja da forma que forem os últimos momentos, o final é tranquilo, o final é paz. Como o caminhar ao lado de uma velha conhecida. Ela só nos leva embora.

Mas nem tudo é o fim. E apesar de termos sido arrebatados de forma eterna desse mundo, parte de nós continua aqui. Tudo aquilo que você ensinou, tudo aquilo que você era, tudo de bom ou ruim que você fez nessa terra, permanece vivo na memória e na atitude daqueles que um dia te conheceram e te amaram. Seu legado pode viver até muito além daqueles que compartilharam algum tempo no mundo com você. Enquanto alguma parte da sua essência se manifestar em outro ser vivo, você não morreu por completo.

Mas então temos nosso derradeiro encontro com a morte. Pois por mais que se passem poucos anos ou muitas eras. Eventualmente, você será esquecido. Tudo o que você deixou nesse mundo será apagado e você se tornará apenas uma pequena e irrelevante manifestação do universo que não é lembrada por mais ninguém. Uma gota e chuva que caiu no oceano durante uma tempestade e não foi por ninguém notada ou quiçá lembrada. Não vai haver ninguém para seguir nosso exemplo pois não vai haver exemplo a ser seguido. Aquele momento universo onde nós existimos já passou.

Nesse momento, a morte vem até nós uma última vez. Dessa vez, de uma forma mais íntima que as demais. Pois agora, ela é a única que te conhece. Não há uma única alma viva ou morta que possa testemunhar esse encontro. No final, a morte é sua melhor amiga, e sua pior inimiga. Ela é a única que restou. E ela vai guardar o segredo de nossa breve existência perpetuamente. 





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